7.12.10

Resenha Crítica de ''O Queijo e os Vermes'' Fonte: http://www.webartigos.com/articles/41442/1/Resenha-Critica-de-O-Queijo-e-os-Vermes/pagina1.html#ix

O Queijo e os Vermes

GINZBURG, Carlo. O Queijo e os vermes. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição é uma obra fundamental para se entender como é feita a micro-história. Neste livro Ginzburg trabalha com o recorte temporal (a história se passa no século XVI); espacial (Menocchio viva em Montereale) e também dá provas do conceito defendido por ele próprio de “circularidade cultural”, ou seja, a cultura da classe dominante sendo recebida, filtrada e depois devolvida pela classe subalterna. Desfrutando da micro-história Carlo Ginzburg nos traz um empolgante livro, dito por muitos como o mais simples do autor. Mas não deixando de ser uma complexa obra, advinda de grande erudição.
O autor parte de um personagem chamado Domenico Scandella, conhecido por Menocchio, nascido em 1532 (data que consta no primeiro processo movido contra ele), para discorrer acerca de temas que eram comuns a sociedade da época, como os julgamentos da inquisição. Trazendo uma nova luz para este período tão violento da Igreja Católica. Partindo do micro para o macrocosmo, Ginzburg faz desta, a estratégia para sua abordagem.
O que chama a atenção foi como Ginzburg chegou ao seu objeto de pesquisa. Analisando documentos sobre os julgamentos dos condenados por bruxaria, chamou-lhe a atenção os documentos dos dois julgamentos ao qual foi submetido, pelo Santo Ofício, Domenico Scandella. O que se segue após esta descoberta é relatado em um envolvente e esclarecedor livro, que deu voz a um personagem do povo e considerado “insignificante”, para a história.

Carlo Ginzburg, nascido em 1939 em Turim na Itália, é professor na Universidade da Califórnia (Los Angeles), e também deu cursos no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e na universidade de Bolonha, Itália. Escreveu livros que já foram traduzidos em quinze idiomas e é um dos mais importantes e influentes historiadores de nosso tempo.

Domenico Sacandella (Menocchio) é um moleiro de Friuli, lugarejo que vivia sob domínio de Veneza. Possuía Menocchio, uma particularidade, sabia ler e escrever o que não era muito comum entre os pobres da época.
Além de moleiro, Menocchio se dizia carpinteiro, pedreiro e tinha certa ascendência sobre seus pares, pois havia sido magistrado em sua região e administrador da Paróquia de Montereale.
Através da leitura, Menocchio vai dando sua interpretação para temas polêmicos como a virgindade de Maria, a criação do mundo e que os evangelhos foram escritos por homens e que são mercadorias, assim como os sacramentos (batismo, casamento, extrema unção, hóstia consagrada) e muitos acham que ele está contaminado por idéias luteranas, visto que viviam sob o impacto da reforma protestante.
Menocchio, embora seguisse os preceitos católicos, como a confissão e a comunhão, formulou a teoria de que o mundo foi criado do caos, todos os elementos cósmicos, terra, ar água, encontravam-se misturados formando um só “caos”, uma só massa, que ele explicava como sendo um “queijo” de onde saíram “os vermes”, dentre eles Deus e Lúcifer (segundo Menocchio são feitos da mesma massa). Água, terra, ar e fogo para ele eram Deus. O moleiro não acreditava em um ser supremo, em um Deus “todo poderoso criador”.
Scandella baseava a sua teoria em alguns livros que havia lido, muitos deles emprestados por amigos, no qual se destacam o Decameron (Bocaccio), a Bíblia em língua vulgar, o Fioretto della Bibbia (o único que há certeza que foi adquirido pelo próprio) e uma versão em italiano do Alcorão.
Por sua convicção no que dizia, e pela clareza com que defendia suas idéias, Menocchio causava admiração até em seus inquisidores. Sempre se suspeitava que ele não houvesse formulado tais conceitos e sim estava só repetindo idéias e que havia uma cabeça pensante por trás de suas palavras. Como idéias tão “ousadas” e “heréticas” poderiam ter sido formuladas por um simples e “paupérrimo” moleiro?
É fantástica a transcrição de um de seus interrogatórios, onde o moleiro defendia com convicção sua cosmogonia.
Menocchio foi condenado pela primeira vez, embora tenha entregado uma carta pedindo clemência, a negar publicamente suas idéias, pagar várias penitencias e usar uma roupa que “maracava-o como herege” e a passar o resto dos seus dias na prisão, sendo sustentado por sua mulher e seus filhos. O tamanho da sentença cinco vezes maior que as habituais, chamou a atenção de Ginzburg. Aí vem um fato que até então era desconhecido, o tribunal do Santo Ofício revia suas sentença e assim foi feito com Menocchio que teve sua liberdade restituída quase dois anos depois.
Conseguiu, embora com algumas limitações, voltar a sua vida normal de moleiro, alugou junto com seu filho mais velho Ziannuto, outro moinho onde beneficiaria tecidos e passou a animar festas tocando violão. Há testemunhos que seu prestígio na comunidade permanecia inabalado. Ma seu lado, por que não dizer “anarquista”, voltou a se manifestar. Aí, uma nova denúncia foi feita ao Santo Ofício, que de novo julgou Scandella. Agora, fragilizado pela morte de seu filho querido Ziannuto e renegado pelos outros filhos, Domenico ainda implorou clemência, mas foi torturado e teve sua morte pedida pelo papa Clemente VIII em pessoa.
E Ginzburg termina sua brilhante obra, citando outro caso parecido, com um parágrafo que vale à pena transcrever:
“Sabemos muita coisa sobre Menocchio. De Marcato ou Marco – e de tantos outros como ele, que viveram e morreram sem deixar rastros – nada sabemos” (p.192).

O queijo e os Vermes é a “Bíblia” da micro-história. Uma pesquisa minuciosa, profunda e por que não dizer apaixonante feita por Carlo Ginzburg, é sublime a maneira como documentos escritos são confrontados com a realidade da época, tendo como pano de fundo a reforma protestante e a contra-reforma católica. Ao ler tão iluminada obra sentimos uma verdadeira devoção pela história do moleiro fruilano, deve ser essa a sensação sentida por seu pesquisador, que organizou tão bem documentos, teve acesso ao nome dos livros (embora não a todos) que formaram a cosmogonia e a cosmovisão de um homem comum, um homem como é descrito no livro “paupérrimo”, ao qual a história não enxergava como uma cabeça pensante. Como a partir de um simples homem chegamos ao cerne de uma época em uma sociedade. Por sorte nossa esta obra está aí ao alcance de todos, historiadores ou não, e que seja lida e passada por todas as gerações.
Leiam e se deliciem!



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