21.1.11

A História da Medicina Indígena Brasileira

O indígena brasileiro, na ocasião do descobrimento, em 1500, era ignorante, temia e obedecia cegamente ao feiticeiro, ao pajé e ao sacerdote. Tratava-se de um povo muito atrasado em relação aos outros povos do continente, como os astecas, incas e maias. Raríssimos eram aleijados, cegos, surdos, mudos ou coxos e as deformações eram de origem traumática. Eram mais fortes e robustos do que os europeus e menos sujeitos a doenças. Muitos viviam por tempo prolongado (cerca de 120 anos contados pela lunação) e poucos, na velhice, tinham cabelos grisalhos. Chegavam a essa fase da vida com os dentes íntegros e virilidade preservada. Banhavam-se várias vezes ao dia, o que espantava os europeus, cujo asseio corporal deixava muito a desejar. Os banhos e os exercícios freqüentes eram responsáveis pela perfeição da imagem corporal. Após realizarem longas cam¡nhadas, feridos ou febris, os índios, cansados e suados banhavam-se nas águas do mar ou dos rios, o que, não raramente, causava-Ihes congestões pulmonares letais.

O índio, adepto da liberdade de que sempre usufruíra, não se adaptava ao estafante trabalho escravo imposto pelo homem branco, diferentemente do negro, que era mais dócil, forte e trabalhador e cujo braço contribuiu decisivamente na colonização de nosso país.

O ”sensualismo exacerbado” do português e do negro e o temperamento ardente da mulher indígena foram os fatores responsáveis pelos cruzamentos e disseminação de doenças em nossa terra. Tribos inteiras apresentavam doenças venéreas. Muitos ameríndios morreram de varíola, tuberculose e sífilis.

Outro fator que contribuiu para o enfraquecimento e decadência do povo indígena foi o hábíto de ingerir bebidas alcoólicas, particularmente a aguardente de cana, que dizimou milhares de vidas.

Calcula-se que na época do descobrimento havia mais de um milhão de índios em nossa terra, os quais foram reduzidos para menos de 300 mil no início do século XIX.

A patologia indígena se resumia a bouba, bócio endêmico, malária, parasitoses e dermatoses, disenterias, febres inespecíficas, acidentes, envenenamentos, mordedura de animais venenosos, ferimentos de guerra e doenças, muitas delas introduzidas pelo convívio com o homem branco, como gripe, reumatismo, pleuris e pneumonia. As doenças eram encaradas como castigo ou provação decorrentes da vontade de um ser sobrenatural ou da ação de astros

A terapêutica indígena era mística, comtribuindo para sua eficácia o espírito sugestionável dos silvícolas. Baseava-se nas virtudes medicinais das plantas, sendo ainda empregados como medicamentos: sangue humano ou dos animais (fortificante), saliva (cicatrizante), urina (excitante e vomitiva), a cabeça ou cauda dos ofídios, gordura de onça ou de outros animais, garras, chifres, ossos e cabelos, sapo queimado e pulverizado, etc. As plantas eram colhidas frescas e mastigadas previamente pelo curador (pajé) que rotineiramente mantinha em segredo o nome do espécime usado. Os únicos que conseguiram saber dos aborígines, os espécimes vegetais utilizados terapeuticamemnte, foram os jesuítas.

Os atos cirúrgicos eram bastante rudimentares, resumindo-se a amputações de membros e suturas com cipós, realizadas nos grandes ferimentos resultantes de combates ou de acidentes. A imobilização de membros fraturados era feita em compridas folhas de palmeiras. Os dentes cariados eram precocemente arrancados.

A escarificação e a sangria eram de uso corrente entre os indígenas. A escarificação era realizada pelo pajé, que friccionava a folha de urtiga na parte inflamada ou dolorosa do corpo e posteriormente esfregava uma pedra afiada até ocorrer sangramento. A sangria era realizada em veia frontal ou da perna, utilizando objetos cortantes como dentes de animais, bicos de pássaros, lascas de taquara, cristal de rocha e outros. Esse procedimento era indicado para tratar várias doenças e para purificar jovens púberes, cujas mães, utilizando dentes afiados de animais, faziam-lhes incisões em várias partes do corpo, que provocavam dores e sangramento por certo tempo.

Outros procedimentos terapêuticos freqüentes eram massagens e fricções realizadas pelo pajé, molhando as mãos em saliva ou em caldos de ervas e friccionando com forte pressão o corpo do paciente; essa manobra causava dores, suores profusos e vômitos que eram provocados pela introdução de folhas enroladas na garganta.

O calor seco e úmido também fez parte do arsenal terapêutico dos índios. O calor seco, destinado a promover sudorese, era obtido por meio de fogueira colocada sob a rede onde estava o paciente. Também era indicado para curar ferimentos extensos, tumores ou úlceras de difícil cicatrização, admitindo eles que o calor tiraria todo o sangue podre e a malignidade da lesão. O calor úmido era obtido jogando-se água fria sobre uma pedra aquecida e o paciente aspirava os vapores resultantes.

A proteção contra o ardor provocado na pele pelos raios solares ou contra picadas de insetos era feita mediante o uso do fruto do jenipapeiro ou urucueiro untado na pele, procedimento também empregado em casos de febre com calafrios.

A índia grávida trabalhava normalmente em seus afazeres domésticos, sem repouso, e o parto ocorria normal e facilmente. Quando surgiam as dores do parto, no lugar onde ela estivesse, ficava de cócoras e o feto era expelido, seguido da placenta e de pequena quantidade de sangue. A própria parturiente cortava o cordão umbilical com lasca de taquara ou com os dentes, ligando-o com cipó ou qualquer outra raiz disponível e levava o filho para banhar-se junto com ela nas águas do rio mais próximo para se depurarem. Era raro o parto distócico, ou seja, difícil, ou duplo, e não se tem conhecimenlo de infecção puerperal.

Quando o parto se tornava difícil, a parturiente gritava e era auxiliada pela pessoa que estivesse mais próxima, homem ou mulher, que fazia manobras de compressão no ventre para forçar a descida do feto. Nessas condições, várias vezes os padres jesuítas também auxiliavam as indígenas no trabalho de parto.

O aborto era praticado com relativa freqüência pelas indígenas brasileiras. Provocavam-no pulando de grande altura e socando o baixo ventre com os próprios punhos.

Carlos Chagas ao microscópio, em Manguinhos, com Henrique da Rocha Lima. Rio de Janeiro, [1906].

Fonte: Fundação Oswaldo Cruz – Casa de Oswaldo Cruz – Biblioteca.

Cartão endereçado a Chagas por Oswaldo Cruz, com data de 1º de janeiro de 1906, em que se lê a seguinte mensagem: “Chagas, com os votos que faço para que tenhas um novo ano de felicidades, envio-te os cumprimentos da família e de nossos companheiros de Manguinhos. Saudades do Oswaldo”. Em março daquele ano, regressando da campanha de combate à malária em Itatinga, São Paulo, Chagas seria nomeado pesquisador assistente do Instituto de Manguinhos.

Os índios eram tratados pelo pajé, misto de sacerdote e feiticeiro, que dizia manter relações sobrenaturais com os espíritos dos animais das florestas e que era o indivíduo mais respeitado e temido da tribo. Quando junto do doente, pronunciava palavras mágicas, realizava um minucioso interrogatório e palpava todo o seu corpo na procura de endurações, tumores e regiões inflamadas e doloridas. Nessas regiões fazia forte massagem e, após aspirar a fumaça das folhas queimadas do tabaco, soprava-a sobre o corpo do paciente pronunciando palavras mágicas e realizando gestos ameaçadores para afugentar os maus espíritos. Aspirava o hálito do enfermo e o soprava o mais longe possível, para lá deixar a força maligna responsável pela doença.

Como pagamento por seus serviços, o pajé solicitava e recebia arcos e flechas, vegetais de difícil colheita, pedras coloridas, penas de pássaros, etc.

Fonte:A HISTÓRIA